A agricultura brasileira vive um momento de transição. Entre os desafios de aumentar a produtividade e reduzir o impacto ambiental, produtores e pesquisadores buscam soluções que unam tecnologia, ciência e sustentabilidade. No interior de São Paulo, uma empresa ribeirão-pretana vem se destacando ao unir esses três elementos. A ByMyCell, startup de biotecnologia aplicada ao agronegócio, utiliza o sequenciamento genético de nova geração para mapear a microbiota do solo, permitindo diagnósticos de precisão que orientam o manejo agrícola e reduzem o uso de químicos.
No laboratório da empresa, amostras de solo de diferentes regiões do país passam por extração de DNA total e preparo de bibliotecas de sequenciamento. A análise é feita em nuvem, com auxílio de ferramentas de bioinformática e de um banco de dados proprietário que compara as amostras com microrganismos de relevância agronômica. O resultado é um relatório detalhado que mostra a presença relativa de microrganismos benéficos e patogênicos, além do potencial metabólico do solo um indicador direto da sua capacidade de ciclar nutrientes, fixar nitrogênio, solubilizar fósforo e decompor matéria orgânica.
De acordo com a engenheira biomédica Stella Virgílio, fundadora da ByMyCell, o objetivo é oferecer um conhecimento mais profundo sobre o que acontece abaixo da superfície. Ela afirma que o futuro da agricultura passa por esse tipo de manejo biológico inteligente, apoiado em dados. “Hoje, para se ter um manejo mais direcionado, pensando em agricultura de precisão e agricultura regenerativa, precisa-se ter maior conhecimento do solo”, explica. “Por isso buscamos tecnologias e análises que permitam uma interpretação mais assertiva dos dados microbiológicos.”, completa a especialista.
A empresa desenvolveu o serviço Rizobiota, que traduz a complexidade do DNA do solo em informações práticas para o produtor. As análises ajudam a identificar riscos e orientar o uso de bioinsumos, permitindo ajustes antes mesmo do plantio. Stella lembra de um caso em que o diagnóstico apontou alta concentração de nematóides,que são parasitas que ficam nas plantações. “O produtor decidiu não corrigir o problema de imediato e, dois meses depois, o patógeno se multiplicou e causou perdas significativas. Ele mesmo disse que deveria ter prestado mais atenção e tomado medidas preventivas”, relata.
O modelo de relatório da ByMyCell traz mapas de calor e gráficos que permitem comparar amostras e visualizar padrões. Além disso, o sistema mede o potencial metabólico do solo parâmetro que, segundo os dados da empresa, está diretamente relacionado à produtividade e à resiliência das lavouras. Um solo com alta atividade microbiana é capaz de reduzir o uso de fertilizantes e defensivos, mantendo a saúde das plantas por meio de um equilíbrio natural. “Quando aumentamos os microrganismos benéficos, os patogênicos tendem a diminuir. O importante é o equilíbrio, como no corpo humano”, explica Stella.
A startup atende desde grandes usinas de cana e laranja até pequenos produtores. Para as culturas de grãos, como soja e milho, a análise tem sido aplicada antes do plantio para identificar patógenos que possam comprometer a produtividade. Já em culturas como o abacate e o café, as avaliações ajudam a evitar contaminações por fungos durante o armazenamento, prevenindo a formação de micotoxinas. “Em amendoim e café, observamos fungos no pós-colheita que poderiam liberar toxinas. A análise permite tomar decisões preventivas e garantir qualidade ao consumidor final”, afirma.

O impacto positivo da tecnologia não se limita às grandes propriedades. A mini produtora Isabel Kinney Ferreira de Miranda Santos, médica e também mestre em microbiologia, cultiva abacate em um pequeno sítio na região de Minas Gerais, conheceu o serviço ao trabalhar com a equipe da ByMyCell e se interessou pela técnica do solo inteligente. Pesquisadora da área de microbiotas, ela viu na agricultura biológica um reflexo das mesmas relações de equilíbrio presentes no corpo humano.“É importante, assim como no nosso intestino e em tantas outras coisas. Nós temos dois genomas: o nosso e o da nossa microbiota e o solo também tem o dele. Foi por isso que quis participar, pelo conhecimento que tenho sobre a importância dos micro-organismos”, explica.

Com a rotina científica intensa, Isabel passou o cuidado diário do sítio para o filho, que agora se dedica ao manejo biológico do solo com base nas recomendações técnicas. “Como estou muito ocupada com minha pesquisa, ele começou a cuidar do sítio e vai correr atrás de fornecedores e tudo. É super importante o futuro da agricultura e da pecuária. Meu maior desafio é a falta de tempo para acompanhar de perto, mas agora meu ‘gado metafórico’ vai começar a engordar”, brinca.
O filho, Pedro Agostinho Ferreira de Miranda Santos, assumiu o comando do Sítio Santo Agostinho, em São José da Barra (MG), região da Serra da Canastra, Furnas e Capitólio, nome dado em homenagem ao avô de Pedro, o Sr Agostinho. Ele começou o cultivo há dois anos e acompanha de perto cada nova etapa do plantio. “Estamos começando. Ainda errando muito. Plantamos há dois anos atrás, estamos esperando a primeira safra. Tivemos muita perda nos dois primeiros plantios, plantamos na hora errada (fim das chuvas), plantios feitos com pressa, água demais, água de menos… O terceiro plantio foi o melhor (nas fotos onde os pés já estão mais desenvolvidos), e agora estamos prestes a plantar mais 150 mudas de Hass para repor as perdas. Vamos plantar primeiro só na área onde eles aparentemente se adaptaram melhor.”
Mesmo enfrentando dificuldades comuns aos pequenos produtores, Pedro mantém a esperança e o comprometimento com o projeto. “Para quem está começando na vida de produtor rural, é bem difícil. Falta de informação, mão de obra que não faz o serviço direito, um monte de fatores. Mas vamos ver se daqui pra diante a gente tem algum retorno.Precisa de muito planejamento, colocar as contas na ponta do lápis, pras coisas não darem errado. E ter algum capital para investir.” Entre tentativas, aprendizado e novas práticas de manejo biológico, mãe e filho representam a nova geração de produtores que enxergam no solo vivo não apenas o sustento da terra, mas um caminho de transformação para o futuro da agricultura.
A engenheira agrônoma Beatriz Papa Casagrande, pesquisadora na área de agricultura regenerativa, complementa o ponto de vista técnico. Ela define o solo inteligente como aquele que consegue se auto sustentar por meio da vida microbiana. “Uma floresta intocada não precisa de fertilizantes ou defensivos. Ela se sustenta sozinha porque tem um solo vivo, cheio de microrganismos que fazem a ciclagem de nutrientes e mantém o ecossistema em equilíbrio”, explica. Para ela, o erro mais comum no manejo é tratar o solo como um substrato inerte, quando na verdade ele é um sistema biológico complexo. “O uso excessivo de produtos químicos, a compactação e o revolvimento em excesso desequilibram a microbiota. Isso leva a mais pragas, doenças e perdas de produtividade.”
Beatriz ressalta ainda que a ciência tem um papel central na compreensão dessa vida invisível. “Tem muitos microrganismos que a gente nem faz ideia da interação deles e dos benefícios que trazem. Mesmo com uma ideia ínfima do que a microbiota faz, já usamos muito disso na agricultura.” Ela cita exemplos de microrganismos essenciais, como as bactérias do gênero Rhizobium, responsáveis pela fixação biológica de nitrogênio, e os fungos do gênero Trichoderma, que protegem raízes contra patógenos. Em apenas uma colher de chá de solo, lembra a agrônoma, existem mais de 50 bilhões de microrganismos, um número quase dez vezes maior do que a população humana no planeta.
A agrônoma recorda que essa visão do solo como organismo vivo foi amplamente defendida pela engenheira agrônoma Ana Primavesi, pioneira da agroecologia no Brasil. Ela ressalta que as ideias de Primavesi continuam atuais e inspiram práticas sustentáveis até hoje. “A Ana Primavesi sempre dizia que o solo é um ser vivo e que precisamos trabalhar com ele, não contra ele. Essa visão mudou a forma como entendemos o campo e abriu caminho para a agricultura regenerativa, que hoje volta com força impulsionada por tecnologias”, afirma.
As implicações vão além da produtividade. A agricultura regenerativa, modelo que inspira o trabalho da ByMyCell, é uma das principais estratégias no combate às mudanças climáticas. De acordo com o artigo Rodale Institute sobre , se todos os sistemas agrícolas do mundo adotassem práticas regenerativas, o solo poderia sequestrar até 12,4 gigatoneladas de carbono por ano em cultivos e até 43 gigatoneladas em sistemas de pastoreio, o suficiente para neutralizar as emissões globais de CO₂. “Um solo vivo é um reservatório de carbono. Ele não é apenas o ponto de partida da produção, mas uma solução climática”, reforça Beatriz.

No modelo de negócios da ByMyCell, a sustentabilidade é também um diferencial competitivo. O uso de dados genômicos permite reduzir custos, melhorar a eficiência e atender às exigências de certificações internacionais de sustentabilidade, algo cada vez mais demandado em culturas como o café e o cacau. As análises também contribuem para práticas de rastreabilidade, já que associam o perfil biológico do solo à origem da produção.
Stella afirma que a adesão à tecnologia cresce à medida que os produtores percebem resultados concretos. “Quando o produtor vê o impacto na produtividade e entende que não precisa aplicar o dobro de fertilizante para ter o mesmo resultado, ele muda de mentalidade. Esse é o primeiro passo para transformar a agricultura.” Segundo ela, o futuro do agro será definido pela integração entre ciência e manejo de precisão, e a ByMyCell quer estar na linha de frente dessa transição.



