Dentro de uma sala iluminada por lâmpadas frias e estantes cheias de frascos transparentes, floresce um jardim silencioso, invisível ao grande público, mas decisivo para o futuro da biodiversidade brasileira. Ali, no banco de germoplasma da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), aproximadamente 45 espécies de plantas são cultivadas em um ambiente totalmente controlado. Ele é reconhecido no estado de São Paulo por reunir tamanha diversidade vegetal in vitro.
A professora e pesquisadora Adriana Aparecida Lopes, atua nos projetos que envolvem os estudos derivados do banco. O espaço reúne plantas medicinais, espécies em extinção, plantas ornamentais e exóticas que encontraram nesses frascos uma chance real de sobrevivência diante do avanço das queimadas, da instabilidade climática e da ausência de proteção ambiental. Em um ambiente seguro , os fatores naturais como ondas de calor, variações bruscas de temperatura, períodos de seca ou devastação de matas não interferem no desenvolvimento das espécies. Isso é um ponto crucial para manter estáveis o metabolismo secundário e a composição química das plantas.

Créditos: Fornecido pela professora Adriana Aparecida Lopes
“A cultura in vitro preserva características essenciais da espécie e permite realizar estudos de genética, biotransformação e melhoramento sem interferências externas. Isso garante material vegetal de qualidade e estabilidade química”, explica a professora Adriana Lopes, pós-doutora em biossíntese de produtos naturais.
A formação do Banco de Germoplasma da Unaerp tem uma particularidade rara em instituições científicas: muitas das espécies escolhidas surgem do diálogo direto com comunidades tradicionais. Esse processo é conduzido pela pesquisadora Ana Maria Soares Pereira, que viaja para regiões remotas do Amazonas, Acre e Mato Grosso. Nesses locais, a professora escuta as populações e registra o uso medicinal e cultural das plantas. Com base nesse conhecimento popular, as espécies são trazidas para o laboratório e então introduzidas no sistema in vitro. Assim, o banco preserva não apenas biodiversidade, mas também os saberes ancestrais que se perdem com o tempo.

No laboratório, uma das técnicas utilizadas para manter e expandir o Banco inclui a micropropagação, essencial para aumentar o número de indivíduos de uma mesma espécie, assim como o cultivo de raízes e calos, que permite estudar e multiplicar tecidos específicos. Embora contaminações ou variação somaclonal não sejam problemas frequentes neste método de cultivo, cada espécie apresenta desafios próprios, já que algumas respondem melhor e outras mostram limitações durante o processo de adaptação. O ambiente controlado é determinante para a estabilidade do metabolismo secundário, diferente do campo, por exemplo, onde a planta enfrenta sazonalidade, variações de luminosidade e oscilações de temperatura. No cultivo in vitro ela permanece sob condições fixas, com dezesseis horas de luz e oito horas de escuro, sem exposição a estresses ambientais que poderiam modificar a produção de seus compostos.
Nem toda planta responde da mesma forma quando passa da natureza para o laboratório. Algumas espécies simplesmente não conseguem ser introduzidas no cultivo in vitro devido à sensibilidade fisiológica ou à dificuldade de adaptação aos meios artificiais. Em outros casos, mesmo quando a planta cresce no frasco, pode apresentar mudanças importantes na sua composição. Enquanto, algumas mantêm o mesmo metabolismo que tinham no campo, produzindo os mesmos compostos, outras começam a sintetizar metabólitos diferentes.
Preservar espécies não significa apenas mantê-las vivas, é preciso garantir que continuem geneticamente estáveis e diversas. Para isso, o laboratório da Unaerp utiliza marcadores moleculares, que são ferramentas que permitem analisar e comparar o material genético das plantas ao longo do tempo. O Banco de Germoplasma reúne quinze famílias botânicas, número que coloca a Universidade em posição única no estado de São Paulo. No Brasil, apenas o laboratório da Embrapa, no Rio de Janeiro, mantém acervo semelhante em volume e diversidade.

Créditos: Equipe de reportagem: Ana Helena Mendes, Gabriela Lacerda, Rafaella Carvalho e Vitória Tasqueti
À medida que queimadas e eventos climáticos extremos se intensificam, coleções como essa tornam-se indispensáveis para impedir o desaparecimento de espécies inteiras. Longe da instabilidade ambiental, cada frasco funciona como uma cápsula do tempo, preservando genes, histórias e potenciais terapêuticos.
A urgência desse tipo de preservação cresce principalmente por causa do aquecimento global, que afeta diretamente as populações naturais. Em temperaturas mais altas ou sob ataque de patógenos, as plantas alteram a produção do metabolismos secundários – moléculas utilizadas para defesa, reprodução e sobrevivência -, e são essas alterações que podem comprometer ciclos reprodutivos e funções essenciais. Ao longo de quatro décadas de pesquisas, o Banco da Unaerp revelou espécies com potencial farmacêutico, cosmético e agrícola, reforçando sua importância científica.
Apesar disso, o público em geral pouco conhece o papel desses bancos para a segurança ambiental e para o futuro da agricultura. Em países como a Arábia Saudita, por exemplo, esse tipo de biotecnologia integra estratégias nacionais, como a “Visão 2030”, e é usado em larga escala para micropropagar culturas de alto valor econômico e garantir clones saudáveis para a produção comercial.
No estado de São Paulo, nenhum outro laboratório reúne tamanho conjunto de plantas medicinais, exóticas e ameaçadas, o que torna o acervo singular. No coração desse laboratório, o jardim silencioso continua crescendo. Ele talvez não tenha o perfume das florestas brasileiras, mas guarda em si a promessa de que elas não serão esquecidas.



