Saúde

Alta hospitalar deve ser humanizada e cuidada por uma equipe de saúde

Planejamento para o paciente deixar o hospital não pode ser decisão apenas do médico, aponta o diretor clínico e pesquisa Marcelo Riêra

Emily Carvalho, Gabriel Bovo, Isadora Corrêa Garbellini e Livia Mayumi
8 de dezembro de 2025
O médico e professor Marcelo Riêra, também conhecido como Dra. Ma, no Hospital Beneficência Portuguesa onde trabalha e supervisiona estudantes de Medicina - Foto: Equipe de reportagem - Emily Carvalho, Gabriel Bovo, Isadora Garbelini, Livia Mayumi

O momento mais esperado para quem passou dias em um hospital é a alta. Mas, para que isso aconteça de forma segura, profissionais de saúde   estão atuando em equipe integrada preparando o paciente e sua família para esta saída que, apesar de benéfica, não é tão simples quanto parece. Esse processo é chamado de Alta Hospitalar Qualificada ou AHQ.

O termo AHQ guarda, atrás dessas três letras, uma atenção humanizada, acolhedora e protetora. Esse procedimento é estudado por Marcelo Riêra, médico  e diretor clínico do Hospital Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto, que também é docente do curso de Medicina da Unaerp. Riêra explica que a AHQ acontece quando a saída do paciente é planejada desde o início da internação, garantindo segurança e orientação tanto para ele, quanto para a família. O objetivo é que todos saibam como seguir o tratamento, seja em casa ou em outra unidade de saúde.

Para isso, a  AHQ depende de uma equipe multidisciplinar, formada por profissionais de diferentes áreas, como enfermagem, medicina, serviço social, nutrição, psicologia, fisioterapia, farmácia, entre outras. Essa equipe avalia não só as condições clínicas do paciente, mas também aspectos sociais e familiares, evitando altas baseadas apenas em sintomas físicos. Isso reduz riscos e previne reinternações.

Dra. Ma, como o médico também é conhecido, realizou uma pesquisa de mestrado para entender com profundidade como a AHQ é praticada. O estudo analisou o setor de Clínica Médica da Beneficência, em Ribeirão Preto,  e como é a atuação da equipe. Para isso, ele entrevistou diferentes profissionais de saúde que lidam diariamente com os pacientes.

As respostas mostraram que a alta qualificada é entendida naquele hospital, principalmente, como orientação a pacientes e famílias, garantia de  segurança, envolvimento da equipe, prevenção de riscos, oferecimento de recursos e promoção da qualidade de vida. A orientação foi o ponto mais destacado. O hospital pesquisado apresenta comunicação interna boa e trabalho mais integrado, embora enfrente desafios como falta de pessoal e necessidade de planejamento mais estruturado.

O médico explica que a desospitalização e Alta Hospitalar Qualificada, a AHQ, não são a mesma coisa. A desospitalização é o processo de organizar a saída segura do paciente do hospital. Já a AHQ é o jeito como essa saída deve acontecer, garantindo orientação, continuidade do cuidado e segurança. Ele reforça que a alta qualificada serve para todos os perfis de pacientes, desde casos mais simples até doentes crônicos. Muitos deles ainda precisam de apoio para manter o tratamento em casa e, por isso, o suporte familiar e multiprofissional é essencial.

Para deixar mais clara a importância da AHQ Riêra dá  um exemplo do cotidiano. “Para conseguir uma bengala ou um andadorzinho, a gente vai precisar do serviço social. Está vendo como uma coisa vai puxando a outra?”. Esse exemplo mostra como cada etapa do cuidado depende da outra e como vários profissionais precisam trabalhar juntos para garantir uma alta segura. Segundo ele, essa lógica vale tanto no SUS quanto na saúde privada e não há impedimentos para fazer altas responsáveis na rede pública.

 

Sala de estágio de dos estudantes de Medicina da Unaerp no Hospital Beneficência Portuguesa
Foto: Equipe de reportagem – Emily Carvalho, Gabriel Bovo, Isadora Garbelini, Livia Mayumi

No entanto,  mesmo sendo obrigatória, a AHQ ainda enfrenta dificuldades para ser  posta em prática. Segundo a pesquisa,  há resistência de alguns profissionais que continuam presos ao modelo biomédico, que é burocrático e muito centrado no médico. “Essa resistência prejudica a qualidade da transição do cuidado”, explica o médico pesquisador.

No texto, o triângulo representa esse modelo biomédico e hierarquizado. Já o gráfico em rosca mostra o contrário: profissionais atuando de forma integrada e sem hierarquia

NOVOS CUIDADOS – Durante muitos anos, o atendimento hospitalar brasileiro foi guiado pelo modelo biomédico, que enxergava a doença apenas pelo  lado biológico e colocava o médico como figura central. Isso deixava o cuidado fragmentado, com cada profissional trabalhando isoladamente e subordinado ao saber médico. Esse modelo não atende mais às necessidades do SUS, que propõe  integração entre áreas e decisões compartilhadas. Por isso, desde 2002, leis e portarias determinam que, embora o médico assine a alta, ela deve ser construída coletivamente para garantir continuidade e segurança.

Diante desse cenário, Marcelo Riêra defende que o modelo tradicional precisa ser superado na prática. Não basta ser apenas autorizado institucionalmente, pois sua pesquisa   afirma que o modelo biomédico está ultrapassado, não traz resultados e é burocrático.  Para ele, a qualidade da AHQ depende da humanização e da colaboração mútua e integrada.  “É maravilhoso ver uma equipe inteira, composta por diferentes disciplinas, construindo o cuidado juntas”, conclui.

Marcelo realizou sua dissertação de mestrado em 2024 pela faculdade de medicina da Universidade de Ribeirão Preto