A candidíase vaginal de repetição é um problema de saúde pública que supera os limites da ginecologia e se estende para dimensões emocionais, sociais, sexuais e econômicas da vida de milhões de mulheres. Apesar de frequentemente tratada como uma infecção simples, sua recorrência contínua causa um impacto profundo: limita relações sexuais, compromete a autoestima, provoca ansiedade, afeta o desempenho profissional e acarreta custos financeiros reiterados com consultas, exames, medicamentos e afastamentos temporários. Esse cenário reforça a urgência de estudos que ultrapassem a abordagem tradicional e investiguem as causas mais profundas da doença.
Com esse propósito, a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), processo 2023/15218-3, desenvolve um projeto inovador que busca compreender os fatores genéticos que tornam determinadas mulheres mais suscetíveis à candidíase recorrente. Coordenado pela professora doutora Ana Lúcia Fachin Saltoratto, o estudo fundamenta-se em uma forte justificativa: embora amplamente conhecida e tratada, a candidíase de repetição ainda carece de explicações científicas que justifiquem sua persistência em um grupo específico de pacientes. A hipótese central é de que alterações em genes responsáveis pela ativação do sistema imunológico, entre eles CARD9, TLR2 e DECTIN-1, possam comprometer a capacidade de reconhecimento e eliminação do fungo Candida.

Foto: Arthur Vieira
Essas mutações podem afetar a produção de proteínas importantes, como as citocinas IL-17 e GM-CSF, reduzindo a eficiência da resposta imune e favorecendo a instalação repetida da infecção. Com esta perspectiva, o objetivo da pesquisa, é mapear esses possíveis padrões genéticos, compreender como eles influenciam o comportamento da doença e identificar marcadores que auxiliem no diagnóstico e no tratamento.
O processo de coleta das amostras é realizado pela médica, doutoranda e professora do curso de Medicina, Priscila Roncato Paiva, no Hospital Electro Bonini e no ambulatório da UBS de Bonfim Paulista. A médica atua no atendimento ginecológico com as pacientes para obtenção do material biológico. Serão examinados sangue e secreções vaginais, permitindo avaliar tanto o DNA das participantes, quanto o perfil imunológico ativado durante a infecção.
Além da análise genética, a pesquisa contempla testes de terapias alternativas promissoras. Entre elas estão análogos de curcumina, substância de origem natural reconhecida por suas propriedades antifúngicas e anti-inflamatórias, mas agora utilizada em formulações mais estáveis e com maior potencial terapêutico. O estudo também está investigando o uso do Sargramostim, uma forma sintética de GM-CSF, que pode representar uma estratégia relevante para pacientes com respostas imunológicas comprometidas devido a mutações específicas.
Fazem parte do projeto os doutorandos do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Biotecnologia, Priscila Roncato Paiva, Amir Horiquini, Vinicius Otti dos Santos, Daniela Malzone e a técnica de laboratório, bolsista da Fapesp, Izabela Gabriela dos Santos Tomaz, além de alunos de iniciação científica dos cursos de Medicina, Farmácia e Nutrição. Participam como colaboradores do projeto os professores doutores Rene Beleboni, Mozart Marins, Pablo Sanches, Silvana Quintana (do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) e o professor Luis Octavio Regasini (da Unesp de São José do Rio Preto) responsável por sintetizar os análogos de curcumina.

Foto: Arthur Vieira
Ao integrar genética, imunologia e inovação terapêutica, a pesquisa desenvolvida na Unaerp almeja estabelecer uma nova compreensão da candidíase de repetição, permitindo abordagens mais personalizadas e eficazes. Com o apoio da Fapesp, o projeto se consolida como uma iniciativa de grande relevância científica e social, contribuindo para que, no futuro, mulheres afetadas por essa condição tenham acesso a diagnósticos mais precisos, tratamentos mais assertivos e melhor qualidade de vida.



