A próxima grande crise sanitária mundial pode estar em andamento e não se parece nada com a COVID-19. Longe de provocar surtos imediatos ou lotar hospitais de um dia para o outro, a crescente das superbactérias avança de forma lenta, silenciosa e constante, transformando infecções simples em desafios médicos e colocando em risco procedimentos que hoje são considerados rotineiros.
As chamadas “superbactérias”, termo usado pela mídia, são cientificamente conhecidas como bactérias multirresistentes, microrganismos capazes de sobreviver a diversos antibióticos e que, por isso, reduzem de maneira drástica as possibilidades de tratamento. O problema, antes direcionado principalmente a hospitais, já se espalha entre a população e no meio ambiente, como mostram pesquisas recentes sobre a presença dessas bactérias fora do ambiente hospitalar. Este é um cenário que especialistas classificam como uma pandemia silenciosa. “Podemos dizer que já estamos vivendo o início dessa pandemia”, afirma o pesquisador André Pitondo da Silva, docente dos programas de Mestrado e Doutorado em Biotecnologia e em Odontologia da Unaerp.

Foto: André Paterlini
Segundo Pitondo, a resistência bacteriana ocorre de duas formas: intrínseca, quando a bactéria já nasce resistente a determinados medicamentos, e adquirida, que é resultado de mutações ou da troca de material genético entre diferentes espécies. Esse processo, natural à evolução dos microrganismos, é acelerado pelo uso inadequado de antibióticos em humanos, animais e no ambiente. Interromper o tratamento antes do prazo, usar antibióticos sem prescrição ou recorrer a esses medicamentos para tratar infecções virais contra as quais são ineficazes aumentam o avanço das bactérias resistentes.
A pesquisa que vem sendo realizada pelo pesquisador demonstra que em biofilmes – comunidades microbianas que se formam em superfícies especialmente preparadas para este fim – essas bactérias trocam genes e coordenam estratégias de sobrevivência, funcionando como exércitos microscópicos preparados para enfrentar qualquer tratamento. “Essas comunidades se organizam como verdadeiros exércitos de células multirresistentes”, alerta o especialista.
Entre as superbactérias mais conhecidas estão o Staphylococcus aureus, resistente à meticilina (MRSA), a Klebsiella pneumoniae e a Acinetobacter baumannii, responsáveis por pneumonias, infecções urinárias, infecções de corrente sanguínea e feridas cirúrgicas. Hoje, essas cepas já não se restringem às UTi’s. Infecções urinárias causadas por Escherichia coli multirresistente, por exemplo, tornaram-se cada vez mais comuns entre pacientes que nunca pisaram em um hospital, comprovando que a resistência antimicrobiana ultrapassou fronteiras e chegou definitivamente à atenção básica e ao cotidiano da população. Pitondo afirma que “a maioria das bactérias isoladas de infecções urinárias em pacientes comunitários já apresenta resistência múltipla”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a ONU alertam que, se nada for feito, as superbactérias poderão causar até 10 milhões de mortes anuais até 2050, número superior ao de doenças como câncer e diabetes. Para muitos especialistas, o planeta já vive os primeiros momentos dessa crise global. Parte dela vem de fatores visíveis, como a falta de políticas de controle, mas outra parte é resultado de um avanço invisível: a disseminação de bactérias resistentes em esgoto, rios, solos e até alimentos.
O ambiente tornou-se um ponto crítico de risco, influenciado pelo descarte inadequado de resíduos hospitalares, pelo uso de antibióticos na produção animal e pela falta de saneamento básico. Rios e sistemas de esgoto funcionam como corredores naturais de transporte dessas bactérias, permitindo que circulem entre humanos, animais e diferentes ecossistemas. “A água desempenha um papel central nesse processo”, explica o pesquisador. “Ela transporta microrganismos resistentes entre ambientes e acaba trazendo o problema de volta para o ser humano”.
A pandemia de COVID-19 intensificou esse cenário. Apesar de antibióticos não atuarem contra o vírus, seu uso explodiu durante a crise sanitária, tanto em pacientes graves quanto por automedicação e prescrições inadequadas. Essa pressão seletiva acelerou a evolução das bactérias resistentes, expondo fragilidades nos sistemas de saúde, agravadas por desinformação, fake news e protocolos adotados nos primeiros meses da pandemia. “Essa situação expôs fragilidades importantes dos sistemas de saúde e a falta de preparo diante da desinformação”, comenta o professor de microbiologia, André Pitondo.
No combate às superbactérias, a ciência tem recorrido a tecnologias de ponta. Em hospitais, culturas e antibiogramas identificam quais medicamentos ainda podem agir contra determinadas infecções. Em laboratórios de pesquisa, ferramentas como biologia molecular, espectrometria de massa e sequenciamento genético permitem rastrear genes de resistência e acompanhar a trajetória desses microrganismos. Pesquisadores têm explorado alternativas aos antibióticos tradicionais, como bacteriófagos, nanopartículas metálicas e compostos naturais. Existem ainda esforços promissores impulsionados pela inteligência artificial, como a descoberta da Halicina, uma molécula que demonstrou forte ação contra bactérias multirresistentes e representa um novo caminho para o desenvolvimento de fármacos.

Foto: André Paterlini


