Sustentabilidade

Desembale menos e descasque mais

Pesquisa comprova que o preparo adequado dos alimentos com aproveitamento integral dos nutrientes auxilia na saúde da população e reduz o desperdício

Ana Clara Leal, Ana Luiza Mattar, Daniela Moraes, Luisa Casadio e Mariana Lebre
8 de dezembro de 2025
As cascas de banana podem ser ingredientes reaproveitados para fazer receitas saborosas

Em um país que desperdiça cerca de 27 toneladas de comida por dia e onde cada brasileiro joga fora anualmente 60 quilos de alimentos ainda próprios para consumo, segundo a OMS, discutir novas formas de se relacionar com a comida que chega ao prato deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

Imagem ilustra um gráfico com informações sobre o desperdício de alimentos no mundo

Nesse cenário, o que antes era descartado sem questionamento na hora de cozinhar (cascas, talos e sementes), hoje ganha protagonismo em cozinhas domésticas, industriais e restaurantes. A técnica de aproveitamento integral dos alimentos une saúde, sustentabilidade e economia, reforçando que cada parte do ingrediente carrega valor nutricional capaz de enriquecer qualquer prato.

O estudo “Aproveitamento Integral dos Alimentos na Rede de Atenção Básica”, desenvolvido pelo gastrônomo Jean Carlos Silva como dissertação de mestrado em Saúde e Educação, investiga os fatores que influenciam o desperdício. Mais do que um retrato da alimentação dos ribeirãopretanos, o pesquisador analisa a forma como os moradores da cidade utilizam, ou não, todas as partes nutritivas dos alimentos.

Jean Carlos Silva, chef de cozinha, pesquisador e escritor do artigo “Aproveitamento Integral dos Alimentos na Rede de Atenção Básica”

A pesquisa, aplicada na Atenção Básica do SUS, utiliza um questionário estruturado que analisa hábitos alimentares, percepções sobre desperdício e condições socioeconômicas. Para Jean, a pergunta central que norteia o estudo é direta:

Quais fatores influenciam o aproveitamento integral dos alimentos pela população de Ribeirão Preto?

A resposta para essa pergunta ainda é aguardada, mas enquanto não finaliza sua pesquisa, Jean pretende conscientizar a população por recursos didáticos como oficinas culinárias, vídeos educativos, cartilhas informacionais e atividades lúdicas, tarefas que conseguem aproximar as pessoas dos conteúdos educacionais e práticas alimentares saudáveis.

Segundo Jean, isso pode beneficiar principalmente pessoas que têm menos recursos para comprar alimentos variados e obter uma maior quantidade de nutrientes em seu consumo diário. Outra vantagem que esses pratos sustentáveis podem trazer é o incentivo para crianças comerem mais legumes e vegetais, uma vez que são inseridos na dieta alimentar de uma forma diferente.

Um dos objetivos do estudo é desenvolver um e-book com receitas diversas, que vão desde pratos salgados até sobremesas e podem ser incorporadas de forma prática na rotina de qualquer pessoa, seja ela profissional ou amadora.

“Dentro desse e-book, os leitores conseguem classificar por estrelas quais são as preparações que eles gostaram mais, quais as mais fáceis. Isso vai gerar um gráfico ali dentro que sobe as receitas mais vistas e reproduzidas e desce as menos”, comenta o pesquisador.

 

Veja como fazer receitas saborosas com alimentos não convencionais

Na cozinha de amadores, a iniciativa também se fortalece. Mel Amoroso, estudante de Terapia Ocupacional e entusiasta das técnicas que utilizam o alimento por completo, destaca que cozinhar a própria comida favorece escolhas mais conscientes, sendo uma forma mais simples de cuidar da saúde e do bolso.

Além disso, existe o valor do ato de fazer o alimento, que pode estar associado a valores culturais e lembranças afetivas, podendo ser um momento de lazer ou relaxamento. Também pode ser uma forma de cuidado, tanto de si quanto de outros que se beneficiam do alimento. Tudo isso ajuda na construção de uma saúde que não seja apenas fisiológica e biomédica.

Dessa forma, o aproveitamento integral de alimentos é mais do que uma tendência, se consolida como prática necessária para um futuro sustentável e prova que sabor e nutrição podem estar justamente naquilo que muitos ainda insistem em descartar.