Da maionese vegana a sérum hidratante, uma alga pesquisada na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) tem se destacado como matéria-prima versátil para alimentos, cosméticos e até produtos com potencial farmacêutico. A Kappaphycus Alvarezii, originária da Ásia, chegou ao Brasil em 1995 trazida pelo professor Edson de Paula, da Universidade de São Paulo (USP). Por ser uma espécie exótica, passou anos em quarentena e em cultivos experimentais para garantir que não causaria desequilíbrios ambientais. Hoje, é cultivada em fazendas marinhas de Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, onde se desenvolveu rapidamente e se tornou uma fonte renovável capaz de gerar diferentes produtos industriais, do setor alimentício ao médico.
A Universidade de Ribeirão Preto é hoje uma das instituições que impulsionam a pesquisa com a Kappaphycus no Brasil. Nos laboratórios da Universidade nascem desde os experimentos mais práticos, como alimentos veganos, séruns e máscaras hidratantes, até estudos mais complexos que visam desenvolver compostos com potencial medicinal. No momento, esses estudos ainda estão em andamento e a previsão para ser testado é a partir do próximo semestre.
A vantagem é que todo o processo acontece dentro de uma mesma estrutura: cultivo da alga, produção de biomassa, extração, teste e aplicações reais. Essa integração coloca a Universidade em uma posição estratégica para transformar descobertas acadêmicas em tecnologias que podem chegar ao mercado.

Foto: Thays Silva
Uma das aplicações mais imediatas ocorre no setor alimentício, onde a Kappaphycus vem sendo explorada como base para produtos que não têm origem animal. Após a colheita, a alga passa por um processo de secagem e, quando hidratada e batida, se transforma em um gel utilizado na produção de maionese, flan, mousses e outros alimentos. Esse mesmo potencial culinário tem inspirado mestrandos e doutorandos da Unaerp a criar novas aplicações, como um queijo e até um sorvete funcional.
“Já sabíamos que essa alga possui propriedades importantes, como capacidade de gelificação e ação espessante, então buscamos aproveitar essas características para criar receitas que tivessem valor nutricional agregado e apresentassem funcionalidades adicionais.”, explica Jhenifer Gabrielly de Medeiros, doutoranda em Biotecnologia na Unaerp.
Ela destaca um problema comum em alimentos veganos: a dificuldade de alcançar uma boa textura. A solução encontrada foi usar o gel da alga para desenvolver um queijo vegano com consistência mais agradável. No caso do sorvete, a proposta foi substituir a parte da gordura pelo gel, que atua como espessante, e incorporar o pigmento natural da Kappaphycus como corante. Esse pigmento passa por um processo de purificação para garantir segurança e eficácia. A ideia, segundo a pesquisadora, é reduzir o uso de aditivos e apostar em um ingrediente com potencial funcional.
“Nutricionalmente, a alga enriquece as receitas com fibras, vitaminas e minerais, além de permitir a redução de gordura sem comprometer a textura, sendo um ingrediente natural e minimamente processado”, completa a doutoranda.

Foto: Thays Silva
Como se observa, apesar do nome pouco familiar, a Kappaphycus está mais presente no cotidiano do que se imagina. Isso porque dela se extrai a carragena, substância semelhante ao ágar e com alto poder emulsificante, amplamente utilizada pela indústria alimentícia e cosmética. O composto aparece em produtos comuns do dia a dia, como cremes, pastas de dente, leites, iogurtes e outros itens que precisam de maior consistência.
A descoberta do uso dessa alga no setor de cosméticos surgiu de forma curiosa. Maricultores (profissionais que cultivam organismos em ambientes marinhos) que cultivavam a Kappaphycus perceberam que, mesmo realizando um trabalho pesado no mar, suas mãos permaneciam lisas e sem calos. O contato constante com a planta fazia com que ela se dissolvesse nas mãos, formando uma camada protetora e hidratante. Essa observação abriu caminho para o desenvolvimento de produtos de beleza à base da alga, que hoje vai de cremes capilares a produtos faciais com pigmentos de fotoproteção.
Esse organismo marinho possui uma alta capacidade de retenção de líquidos, além de possuir 92 dos 102 minerais essenciais para a nutrição e hidratação da pele, do cabelo e até mesmo das unhas. O grande diferencial desse hidratante é o processo de manipulação que é 100% natural, sem nenhum resíduo químico.

Foto: Juliano Kump Mathion
No campo medicinal, as pesquisas com a Kappaphycus também começam a abrir uma frente totalmente nova. Como explica o coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Biotecnologia da Unaerp, pesquisador Mozart de Azevedo Marins, “a gente começa achando que é só uma alga para um uso específico, mas quando você começa a gerar biomassa em grande quantidade, você começa a descobrir produtos.” Duas das propriedades descobertas são a ação anti inflamatória e a anti agregante de cristais. Um dos estudos em desenvolvimento pelo pesquisador é direcionado a identificar compostos capazes de reduzir a formação de oxalato de cálcio, principal responsável pelas formação de pedras nos rins.
Avaliar as possibilidades de esse produto ser utilizado para prevenção da formação ou diminuição dos cálculos renais é uma das frentes que ganham força baseado nas propriedades físico-químicas das algas e no mecanismo de formação de pedras nos rins. A aposta é grande e a perspectiva de um tratamento menos invasivo e mais acessível anima a equipe. Se os resultados continuarem positivos e forem definidas doses seguras e eficazes, os compostos podem virar a base de um medicamento voltado para pessoas que sofrem com cálculos renais.
E isso é apenas uma parte do potencial. A identificação desses compostos abre caminho para o desenvolvimento de outros produtos farmacêuticos derivados da alga, ampliando a presença da Kappaphycus no setor da saúde. Trata-se de um campo ainda em suas etapas iniciais, mas que pode crescer significativamente nos próximos anos.
E a tendência é que esse movimento só cresça. Com a demanda global por ingredientes sustentáveis, multifuncionais e de baixo impacto ambiental, a projeção é que o uso da Kappaphycus Alvarezii se expanda nos próximos anos em setores como cosméticos, agricultura e biotecnologia médica. Na Unaerp, esse avanço já se reflete em projetos, novas linhas de pesquisa e maior interesse de estudantes que buscam inovação. Se os estudos avançarem, a Universidade tem o potencial de se consolidar como um pólo de referência nessa área, impulsionando tanto a produção científica quanto o desenvolvimento de produtos baseados na alga.




