A busca por uma agricultura mais eficiente, sustentável e menos dependente de fertilizantes desperdiçados tem guiado o trabalho do professor e pesquisador Ricardo Bortoletto-Santos, do Programa de Pós-graduação em Tecnologia Ambiental na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). Sua trajetória começou ainda na graduação, quando percebeu que queria desenvolver materiais com impacto real fora do laboratório. “Isso sempre me motivou a trabalhar em pesquisas que fossem além do laboratório e tivessem aplicação e retorno para a sociedade”. A aproximação com projetos envolvendo biomateriais e liberação controlada abriu caminho para a linha de pesquisa que o professor lidera atualmente, unindo química, nanotecnologia e agricultura.
Esse interesse se intensificou quando passou a colaborar com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entrando em contato direto com os desafios da agricultura brasileira. Durante o doutorado, um estágio no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) permitiu avaliar revestimentos de fertilizantes em condições reais e aprofundar a compreensão sobre emissões agrícolas e eficiência do nitrogênio. “Essa experiência foi decisiva para amadurecer minha linha de pesquisa”.

Foto: Equipe de Reportagem – Felipe Medeiros, Hugo Carcci, Luís Martins e Vinicius Pereira
O desafio por trás dos fertilizantes – A agricultura necessita de fertilizantes, porém grande parte dos nutrientes se perde logo após a aplicação. No caso da ureia, até metade do nitrogênio nela contido pode se perder ao infiltrar no solo ou alcançar rios e aquíferos. O fósforo, por sua vez, fica preso nas partículas do solo ou escorre para corpos d’água, contribuindo para processos de eutrofização – enriquecimento excessivo de corpos d’água com nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, que leva ao crescimento exagerado de algas e plantas aquáticas. “Essas perdas viram prejuízo econômico e fonte de contaminação ambiental”, aponta o pesquisador.

Foto: Equipe de Reportagem – Felipe Medeiros, Hugo Carcci, Luís Martins e Vinicius Pereira
Nesse contexto, o grupo de pesquisa desenvolve revestimentos biodegradáveis e nanocompósitos capazes de controlar a liberação dos nutrientes. Esse material funciona como uma película que envolve os grânulos e regula a saída do nitrogênio ou fósforo de acordo com a necessidade da planta. Polímeros vegetais (macromoléculas derivadas de fontes naturais como as plantas; por exemplo a molécula do amido) formam a base do material, enquanto nanopartículas, como argilas e lignina, reforçam a estrutura e retardam a passagem da água, prolongando a disponibilidade do fertilizante. Segundo o docente, “esses materiais transformam um fertilizante comum em um insumo mais eficiente e alinhado ao que a agricultura moderna exige”.
Além dos revestimentos, o grupo também investiga o encapsulamento de microrganismos benéficos, como Bacillus e Trichoderma. Eles são incorporados em matrizes poliméricas (macromoléculas que se tornam um material mais resistentes ao serem compostas com agentes de reforço, como as fibras, por exemplo) que protegem as células até chegarem ao solo, garantindo maior sobrevivência e ação prolongada. “A matriz funciona como um escudo, minimizando danos por calor, dessecação e estresse”, destaca Bortoletto-Santos. Quando liberados no solo, esses microrganismos solubilizam nutrientes, produzem hormônios vegetais e estimulam o crescimento das raízes, ampliando ainda mais a eficiência agronômica e contribuindo para uma agricultura sustentável.
Resultados que apontam para o futuro – Ensaios em laboratório, solo e campo mostram reduções expressivas nas perdas de nitrogênio, além de menor emissão de gases de efeito estufa. De acordo com o professor, “os revestimentos conseguem sincronizar a liberação do nutriente com a demanda da planta, reduzindo volatilização e lixiviação”. Em estudos internacionais conduzidos com o USDA, alguns materiais chegaram a reduzir emissões de óxido nitroso em até 80%, um dos principais gases do efeito estufa.
Bortoletto-Santos destaca que essas evidências reforçam que a agricultura pode ser mais limpa sem perder produtividade. “Já conseguimos comprovar que novos materiais representam um caminho real para uma agricultura mais eficiente e ambientalmente equilibrada.”
Com a demanda crescente por insumos sustentáveis, a perspectiva é otimista. “O setor agrícola tem demonstrado forte interesse. Muitas dessas tecnologias já estão prontas para avançar rumo ao uso comercial”, afirma o especialista.
O grupo agora amplia estudos com revestimentos bioativos, proteção microbiana e sistemas híbridos de liberação controlada. A expectativa é que, nos próximos anos, essas inovações reduzam perdas, melhorem a eficiência no uso de nutrientes e tornem os sistemas produtivos mais resilientes. “O impacto esperado é tornar a agricultura brasileira mais sustentável, econômica e menos dependente de insumos externos”, conclui Bortoletto-Santos.




