políticas públicas

“Vamos cuidar do nosso quintal”

Joyce Pezzato e Thais Etelvino
26 de novembro de 2024

Para  Marcelo Pereira de Souza, a educação ambiental é essencial para se pensar a possibilidade de um futuro climático. Contudo, trata-se de um processo complexo que esbarra em interesses políticos e econômicos. Souza, é professor titular do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP-RP, especialista em Gestão Ambiental e presidente da Associação Ecológica e Cultural Pau Brasil. 

Como as recentes queimadas que estão assolando o país, podem impactar a vida nas cidades?
Afeta todo mundo. Uma poluição danada, você não vê? Toda vez que o pôr do sol está muito bonito, é porque há muita poluição. No fim de setembro, não choveu. Essas queimadas têm ligação direta com isso. Não temos água nos corpos d’água, em reservatório, na umidade relativa do ar, uma secura. Afeta a vida, não apenas dos seres humanos, mas dos pássaros. Era época de procriação. Cadê a sabiazada cantando? Eles não têm alimentos, que acabaram com os insetos, então não tem sabiá. Existe um livro famoso da década de 1960, de uma autora que se chama Raquel Carson, que se chama “A Primavera Silenciosa”. É o que está acontecendo.

Se na cidade nós estamos sofrendo as consequências, na área rural é uma catástrofe, os ribeirinhos, os povos indígenas, animais, é uma catástrofe. Lembre-se, eles não têm ticket de refeição, não têm supermercado. E se tem, não tem dinheiro. Isso, se chama fome. Quanto mais pobre, mais você paga a conta.

Por que áreas verdes são tão importantes no ambiente urbano?
As coisas estão interligadas. Por exemplo, esse calor do cão em Ribeirão Preto, se tivesse uma arborização mais adequada, continuaria o calor, mas seria um cão pequeno. Se há uma região arborizada na cidade, essa região é muito mais agradável. Não apenas do ponto de vista físico, mas do ponto de vista emocional.

Se você mede a temperatura próxima ao asfalto, onde você está andando, em edificações, vai estar brincando 60, 65ºC. Porque o calor é absorvido por esses materiais. Depois tem uma radiação. Dá-se o nome disso de Ilhas de Calor. A modificação do sistema natural para um sistema artificial traz várias consequências. Pior, se chove, quando você tem árvore, eu costumo dizer que as gotas da chuva vão conversando, ela vem escorrendo, galho, folha, até chegar no chão. Se você tem uma área impermeável, rapidamente inunda tudo. Portanto, se você estiver pensando em drenagem, é muito melhor uma bacia com árvore, chamamos de rugosidade. 

Marcelo Pereira de Souza, professor titular do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP-RP e presidente da Associação Ecológica e Cultural Pau Brasil

Como amenizar o calor e outros sintomas subsequentes da seca histórica que enfrentamos nos últimos meses? 
Vamos cuidar do nosso quintal, vamos tentar plantar. Vai resolver? Não. Mas com isso eu acabo me engajando mais. Eu penso que “Tá com Calor? Plante Árvore” é uma excelente iniciativa para as pessoas se mobilizarem. Lembra que nós falamos que a sociedade é massa de manobra, vítima? Você começa a despertar na pessoa, o raciocínio crítico para as coisas. Portanto, cuidar do seu jardim é altamente educativo. 

O quão longe a cidade está da meta estipulada pela OMS de 15m2 de área verde por habitante? 
Fica muito claro que Ribeirão Preto não segue a lei. Na realidade, a legislação fala em 20%. Se as pessoas seguissem a lei, teríamos 20%. 

Qual seria o papel da sociedade frente a essa crise ambiental? 
A sociedade é vítima do processo. Porque nós temos uma educação, que na realidade ela não é uma educação, é um adestramento. Nós vivemos na terra de Paulo Freire. Não combina ensino com militar. De alguma maneira, a ditadura militar, até 1970, fez isso com o ensino público. Ela acabou com o ensino, para deixar a população sem perspectiva de realmente refletir sobre essa situação. Uma pessoa que não reflete, aceita as coisas. As pessoas hoje levam a culpa do mundo nas costas. Isso para quem domina, do ponto de vista econômico, é uma perfeição. Tem uma mão de obra barata e que não abre a boca. Com isso, o Brasil passou por um período, que ainda está passando, de extrema concentração de renda, riqueza e empobrecimento da população.

O que tem que fazer? Resgatar a escola pública, não militarizar, ao contrário. Fazer com que as pessoas raciocinem, pensem, sejam críticas ao processo. Isso é política pública, tem que ter política pública educacional para que eu possa cobrar alguma coisa dessa população. 

Vocês estão tentando validar um projeto de lei aqui em Ribeirão Preto, que é sobre arborização municipal. A Prefeitura de Ribeirão Preto, tem algum interesse em trabalhar? 

Nenhum interesse. O poder público de Ribeirão Preto representa o agronegócio, que representa os interesses das empresas que fazem loteamento e construção civil. Então, se você falar para um cara desse que ele vai ter que largar a área verde no lugar de vender lote, ele fala “de jeito nenhum”.

Qual a importância de políticas públicas nesse momento de crise climática?
A política pública vem através da mobilização da sociedade. A sociedade só se mobiliza a partir da educação. 

Então se não se reeducar a população para passar isso para as próximas gerações, não teremos mudanças?
Esse é um aspecto pontual, importante. É necessário, mas não é suficiente. Você pega Ribeirão Preto, que é abastecida 100% por água subterrânea. O poder econômico das construtoras quer fazer mais prédios por quarteirão, para poder vender mais apartamentos. O abastecimento subterrâneo não comporta isso. Então, ao invés de se contentar, eles falam em tratar a água do Rio Pardo, para abastecer o lucro deles. É o fim da picada, né? Então, precisamos tomar um pouco de cuidado porque não existe política pública sem os dois elos, a sociedade e o poder público.

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