Estudantes se automedicam para concentrar nos estudos

Universitários utilizam Ritalina sem necessidade, podendo apresentar riscos
por Bruna Marchi

Para ingressar em uma universidade os estudantes passam pelo processo do vestibular e enfrentam, muitas vezes, alta concorrência. Atualmente, os dois cursos mais disputados, segundo dados da Fuvest 2017, são Medicina em Ribeirão Preto, com uma relação candidato/vaga de 75,68, e Psicologia, com 53,45. Ser aprovado no vestibular demanda muita dedicação e paciência e exige tempo e estudo. Para enfrentar essa pressão, estudantes se automedicam para manter foco e concentração. Além dos vestibulandos, depois de ingressar, universitários também usam medicamentos para dar conta dos novos e exigentes estudos.

Estudante de Medicina: “Utilizo a Ritalina para estudar nas semanas de provas”

Um aluno do sexto ano de Medicina da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), passou pela fase do vestibular e ao ingressar na Universidade começou se automedicar com frequência, com comprimidos de Ritalina. Segundo ele, a partir do segundo ano do curso tornou-se essencial o medicamento. “Utilizo a Ritalina para estudar nas semanas de provas. São aproximadamente cinco a seis comprimidos na semana, mas já utilizei para viajar, pois quando vou para a cidade onde minha família mora, fico na estrada por oito horas”.

Para o estudante, utilizar o medicamento aumenta a concentração, deixa o pensamento mais leve e torna-se fácil focar por mais tempo em alguma leitura ou estudo. “Sem o remédio consigo ficar duas horas estudando. Com ele, quatro horas passam rápido e ainda consigo retornar após pausas”. Segundo o universitário, não há dificuldades para conseguir a receita, pois como os amigos têm a prescrição, recorre a eles quando necessário. “Pego as receitas com meus amigos porque só me automedico quando tem matéria acumulada. Utilizo sempre pela manhã ou no começo da tarde para aproveitar melhor”. Para iniciar os estudos algumas semanas antes da prova, o aluno diz que é essencial o consumo do remédio. “Meus estudos começam muito antes das provas. Estudo diariamente de uma a três horas e nos finais de semana, usando a Ritalina, estudo umas oito horas ou até mais se precisar. ”

SEM AUTOMEDICAÇÃO – A estudante Sara Andrade, aluna do primeiro ano de um cursinho muito puxado da cidade de Campinas, está prestando prova para Medicina.  Os vestibulares da USP, UNICAMP e UNESP são o foco para a jovem e sendo assim, o ritmo de estudos é bem intenso, com dedicação de 14 a 15 horas por dia. A Ritalina não faz parte de sua automedicação, mas cápsulas de cafeína ou pó de guaraná, segundo ela, uma vez ou outra são necessárias.

A fase de vestibular exigiu que a estudante  deixasse  as atividades físicas e o lazer de lado. “Não tenho tempo para praticar atividades físicas, mas eu tento às vezes sair para caminhar quando eu tenho tempo aos domingos. Outras atividades, como sair com os amigos ou assistir TV, eu não faço com muita frequência, só realmente quando sobra tempo, o que é difícil. ”

Sara continua estudando sem nenhum tipo de medicação que exija uma receita especifica, mas acha injusto que o número de vagas dos vestibulares não aumente proporcionalmente ao crescimento da população, deixando o acesso ao curso escolhido mais concorrido e difícil.

MALES DO MEDICAMENTO – O médico psiquiatra Fernando Augusto Sartori diz que é preciso ter muito cuidado com a automedicação. O princípio ativo da Ritalina é o metilfenidato e a pessoa que o ingere, sem necessidade pode apresentar alterações cardíacas com risco de arritmia que podem até mesmo levar à morte súbita. Taquicardia, surtos psicóticos e agitação, além de síndromes de abstinência e desenvoltura de problemas de humor e atenção são outras consequências. 

“O único motivo para se utilizar a Ritalina é o TDAH, que significa transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. O principal do TDAH é o fato de o indivíduo ter dificuldade de concentração e de foco numa mesma atividade”, afirma Sartori. O medicamento é indicado por neurologistas ou psiquiatras, através de observações de quem convive com o indivíduo que apresenta essas características de baixa concentração. Porém, segundo o médico essas características nem sempre quer dizer que a criança ou adolescente possa ter o TDAH.

Para o médico, muitas vezes pode ser uma simples falta de vontade, o que é normal em todos os seres. Porém, a competitividade exagerada na escola e em quase todos os setores da sociedade tem levado as pessoas a diagnosticarem o baixo desempenho como déficit de atenção. “Por isso o consumo de Ritalina cresceu 775% no Brasil, seja para automedicação ou diagnósticos de TDAH”, afirma.

Sartori finaliza dizendo que mesmo sendo um medicamento controlado, sob prescrição médica, não é impossível conseguir receitas ou encontrar farmácias para comprar a medicação. “O problema é que na maioria das vezes os jovens que não precisam do remédio. Dessa forma, há um mercado ilegal e um acúmulo de automedicação, dando surgimento a problemas psicológicos, físicos e sociais.”

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