EM MEIO À COVID, GRUPOS DE TEATRO TENTAM LEVAR SUAS PEÇAS AO PÚBLICO

Peças online por meio de lives e ensaios por videoconferências são alternativas para enfrentar a crise
por Viníccius Oliveira
As peças do Teatro Popular de Comédia aguardam a reabertura dos palcos
(Arquivo pessoal)

Em março de 2020, com a chegada da pandemia, os teatros e grupos teatrais precisaram suspender suas peças e eventos e pensar em uma solução a longo prazo. Através de lives, ensaios e reuniões online foram tentando se adaptar ao “novo normal”, pois era o possível naquele momento. O mais difícil, principalmente para os artistas, foi a ausência da plateia e não poder conviver diariamente com os colegas a que estavam acostumados.

“A interação social é importante durante o processo de criação”, assim afirma o ator, diretor de teatro e produtor de espetáculos, Antonio Resende, do TPC – Teatro Popular de Comédia, de Ribeirão Preto. Com o distanciamento obrigatório, os grupos teatrais precisaram inovar e tentar algo nunca feito antes: as atividades passaram a ser online. Os ensaios e as aulas têm que ser feitos a distância, por meios digitais, pelo menos até a volta aos palcos ser permitida. Tempos difíceis pedem medidas difíceis.

Alguns grupos teatrais chegaram até a gravar peças online por meio de lives para divulgar no YouTube, entre outras plataformas. No segundo semestre de 2020, em outubro, houve a reabertura dos teatros, porém a plateia precisou ser reduzida a fim de evitar o contágio. Mas não demorou muito para que os teatros fechassem suas portas novamente, a fim de obedecer aos protocolos de isolamento do governo estadual.     

Em Ribeirão Preto, o Teatro Municipal tinha na agenda duas estreias previstas para abril de 2021, mas elas não aconteceram. As peças do Teatro Popular de Comédia aguardam a reabertura do palco para apresentação por duas semanas seguidas. Porém, tudo depende da liberação do Governo Estadual. Enquanto isso, os grupos mantêm os ensaios online e os teatros ficam apenas com o setor administrativo funcionando.

PONTO DE VISTA
Assim que a pandemia chegou, Bolinha Monteiro, atriz e diretora de teatro, se sentiu obrigada a ficar em casa de março a outubro de 2020, quando houve um breve retorno aos palcos. A situação foi muito difícil para professores e atores que entre março e abril teriam a apresentação, por cerca de 15 dias, de peças teatrais no Teatro Municipal de Ribeirão Preto. Com 30 peças, a mostra da escola teatral do Teatro Popular de Comédia, que acontece em abril, e que, inclusive, já estava no calendário da cidade, foi cancelada, assim como um festival,promovido pelo mesmo grupo, que aconteceria em setembro.

O festival e a mostra iriam ser levados também para o Teatro Marista e para a sala Marcos Caruso, dentro do Teatro Popular de Comédia, e já estava toda paga.  Bolinha afirmou que, quando veio a notícia de que tudo teria que ser fechado, foi um choque. A escola já existe há 35 anos e nunca havia parado. O grupo profissional da escola, composto pelos professores e atores, na época estava com três peças prontas para levar ao Municipal em abril e mais duas encaminhadas para apresentação em setembro.

Para piorar a situação, segundo a atriz e professora Bolinha Monteiro, a coisa mais difícil foi ter que ajudar os alunos a entender o que estava acontecendo. De uma hora para outra, ela se viu no meio de um “furacão” por não estar acostumada com o uso de tecnologia. Bolinha lembra que falava: “eu não quero televisão, eu sou do teatro, eu gosto de palco”. Foi chamada para fazer teste na TV, mas sempre negou. Porém, de uma hora para outra, teve que aprender a ligar a câmera do celular e a mexer no Instagram.

Com a produtora Parada Obrigatória, a Cia Teatral Dramaturmaquia fez conteúdos audiovisuais (Arquivo pessoal)

ADAPTAÇÃO
A atriz teve dificuldade em se adaptar com as aulas e ensaios online justamente por não ser adepta com o uso da tecnologia e precisou de ajuda para aprender e, principalmente, aceitar tal situação para assim conseguir passar confiança aos seus alunos para que também aceitassem que a arte pode ser feita de outras formas. Após conseguir adaptar suas aulas para o modo online, ela pedia exercícios para os alunos gravarem durante a aula ou até mesmo exercícios ao vivo para abrir discussões de determinados assuntos, possibilitando, assim, a manutenção das peças.

A manutenção das peças online acontecia para que os alunos que já haviam se formado não se sentissem desmotivados e os alunos que fizeram a rematrícula tivessem força e alegria para continuar no teatro. As aulas presenciais voltaram em outubro, seguindo os protocolos de segurança com uso obrigatório da máscara e higienização com álcool e gel, mas logo foram interrompidas novamente, devido ao novo lockdown no setor teatral.

Segundo Resende, do TPC, muitos atores, diretores e outros profissionais da área não tiveramrentabilidade nenhuma. “Se você tem um grupo de teatro em que a maior forma de captação é a apresentação de peça teatral e você não pode fazer essas apresentações via bilheteria, você não tem uma rentabilidade financeira”.Mas, segundo ele, alguns artistas conseguiram o auxílio pela Lei Aldir Blanc, que contempla os agentes da cultura, os grupos de teatro e os espaços culturais.

“Uma coisa positiva que veio da pandemia foi a reinvenção do ser humano de forma geral. Acho que todos tiveram que se reinventar de alguma forma ou de outra, por mais que, às vezes, um setor não parou, ainda assim ele teve que se reinventar. Então, acho que por trás do caos teve uma evolução”, afirma Henrique Bertolini, ator, diretor e professor de teatro no TPC.

CIA. TEATRAL BEBEDOURO
Em Bebedouro, também no interior de São Paulo, os artistas teatrais enfrentam problemas sérios e passam necessidades. Rogério Fábio, ator e diretor de teatro da Cia Teatral Dramaturmaquia, da cidade, diz que presenciou muito sentimento de tristeza. “Até pouco tempo – porque eu deixei meu cargo em dezembro -, eu estava como gestor num espaço cultural e tinha contato com vários produtores e artistas. Vi muitos artistas precisando de apoio, passando realmente necessidade. Foi um impacto que ninguém esperava, tanto tempo e todas as atividades paradas que não retomaram até hoje”.

Em parceria com a produtora Parada Obrigatória, a Cia Teatral Dramaturmaquia fez conteúdos audiovisuais para a internet para chegar até ao seu público. Enquanto a Cia Teatral entrava com a atuação de seus atores, a empresa ajudava com material e direção. Por serem atores de teatro, foi o único meio possível naquele momento para continuar levando a arte ao público. Segundo Rogério Fábio, foi um grande desafio e um exercício cênico.

Tentando sobreviver a esse cenário caótico, muitos artistas que têm na arte a única fonte de renda precisaram vender o pouco que tinham, como por exemplo, carro, aparelhagem de som, entre outros bens.  Vitória Coimbra, regente de coral na Cia Minaz, diz que não é o caso dela, pois tem salário fixo.  “O que posso falar é que me sinto muito privilegiada. A gente teve uma redução de 25% no salário no segundo semestre, mas que já voltou a ser 100% agora”.

O Theatro de S. João da Boa Vista foi reaberto para comemorar aniversário de 106 anos (Viníccius Oliveira)

SÃO JOÃO DA BOA VISTA
Em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, segundo Ana Paula Ferreira Rinaldi, atual presidente da AMITE (Associação dos Amigos do Theatro Municipal), após quase um ano sem realizar eventos presenciais e sem perspectiva de uma retomada tão cedo, foi preciso rescindir o contrato dos funcionários para arcar com os direitos trabalhistas. A administração utilizou todas as reservas zerando o caixa. No período de março de 2020 até fevereiro de 2021, a AMITE manteve a equipe e não reduziu os horários, salários e benefícios a fim de garantir a manutenção do prédio, deveres administrativos da Associação e atendimento a produtores, associados, fornecedores e o público em geral. Mas, depois disso, não teve outra opção.

“Quando chegou a pandemia, estávamos praticamente iniciando as atividades artístico-culturais do calendário anual no Theatro Municipal. Geralmente em janeiro, o Theatro Municipal fica fechado para manutenção e férias dos colaboradores. Iniciamos fevereiro de 2020 com shows, sessões de cinema, apresentações, visitas. Aqui já havia rumores da quarentena, mas não imaginávamos o que nos aguardava. Nossa agenda estava sendo bem trabalhada com eventos pré-agendados para o ano todo, incluindo todo dezembro com formaturas e eventos natalinos”, comenta Ana Paula.

No dia 14 de março de 2020, sábado, ocorreu o último evento artístico daquele primeiro semestre com a apresentação de Luciana Venâncio interpretando Elis Regina, no espetáculo chamado “Fascinação: Tributo a Elis Regina”. Nas datas de 20 e 22 de março, iriam acontecer dois eventos: um stand up universitário com Rogério Morgado e um show com Jorge Vercillo. O stand up foi cancelado e as pessoas que compraram os ingressos tiveram reembolso. Já o show musical foi adiado, por mais duas vezes e assim continua, conforme orientação do produtor. Com isso, não houve o reembolso de ingressos vendidos.

A partir de março de 2020, os colaboradores passaram a trabalhar remotamente, porém, um deles abria e fechava o Theatro Municipal, de segunda à sexta para ventilação e pequenas manutenções. “Afinal, um patrimônio centenário tombado requer cuidados e atenções minuciosos”, diz Ana Paula.

A exceção foi no dia 31 de outubro, quando o Theatro foi reaberto para comemorar seu aniversário de 106 anos com a apresentação da 43ª Semana Guiomar Novaes, um evento da Prefeitura Municipal em parceria com a APAA. Hoje, mais do que nunca, essa parceria é necessária e atuante. A Prefeitura, através do Departamento de Cultura e sua equipe, apoia a rotina do Theatro Municipal, mantendo o operador técnico e zelador, um estagiário de jornalismo e apoio de limpeza. Ana Paula afirma que não tem sido um momento fácil e que para o setor cultural nunca foi, mas agora, neste governo federal, “tem sido um descaso total, haja vista que até a pasta de Ministério foi perdida”.

Gostou? Compartilhe com os amigos