Por trás das lentes, a trajetória do fotojornalista Joel Silva

Conheça a trajetória de Joel Silva e descubra algumas curiosidades sobre guerras e os projetos que estão por vir
por Arthur Santos
Imagem perfil de Joel Silva 57 anos. (ARQUIVO PESSOAL)

Joel Silva já esteve em guerras, cobriu Copas do Mundo, publicou suas fotos em alguns dos principais jornais do mundo, fez treinamento para se defender de ataques, ficou dias no meio da selva colombiana com guerrilheiros das Farcs e viu uma bomba cair quase ao seu lado, bem perto. Tudo isso em 28 anos de fotojornalismo e somente 57 anos de idade.

Uma vida intensa e um olhar apurado. Um faro jornalístico nato que rende belas imagens e doloridas mostras da realidade. Um fotojornalista autodidata que começou sua carreira com um curso de fotografia na escola de artes gráficas e fotografia Bauhaus. Mineiro de Itaú de Minas – MG, mudou-se para Ribeirão Preto aos 24 anos. “Fui vendedor de disco, trabalhei em loja de vinil, trabalhei em loja de material de construção, fui sapateiro, garçom…”.

Mal sabia que seria premiado pela ONU, com o Every Human Has Rights (premiação que nomeou 30 trabalhos jornalísticos referente aos direitos humanos), receberia o prêmio Wladmir Herzog de Direitos Humanos, além de ter suas fotos na cobertura da Primavera Árabe estampadas no respeitado diário americano “The New York Times” e no espanhol “El País”.

Joel começou a trabalhar no jornal Folha de S. Paulo em 1996. Foi correspondente fotográfico em zonas de conflitos como as guerras no Oriente Médio, o Golpe Militar em Honduras na América Central, e a ocupação do exército no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Atualmente, trabalha com a tecnologia de fotos aéreas por meio de drones, o que vem se tornando muito frequente no fotojornalismo.

“Um jogo entre Brasil x Croácia aqui na cidade (Ribeirão Preto) em 1993 me levou a ser fotógrafo. Eu tinha acabado de comprar uma câmera e eu queria fotografar o jogo de dentro do campo, mas não consegui devido a falta de credenciamento, então, daí em diante, fui pesquisar para ver onde tinha o curso de fotografia”. Mergulhou de vez naquilo que seria sua profissão definitiva.

Logo após concluir o curso, conseguiu emprego no já fechado Jornal Verdade, que era referência em notícias da cidade. Três meses depois foi contratado pela Folha de S. Paulo para atuar em Ribeirão Preto-SP onde conheceu Luís Eblak, um de seus companheiros mais longevos em sua carreira e que mais tarde chegou a ser seu editor. “Conheci Joel quando comecei a trabalhar na Folha, no então caderno regional Folha Ribeirão (que deixou de existir em 2013). Na ocasião, eu era repórter e ele um fotógrafo em início de carreira literalmente. Éramos colegas de equipe.”  Dois anos depois, em 1996, a Folha abriu uma vaga na sua sede em São Paulo, como freelancer. Joel não pensou duas vezes e foi transferido para à capital, lugar que já almejava “Eu queria ir pra São Paulo, pois via lá uma amplitude maior de possibilidades”.

Conseguiu se firmar de vez na empresa e dois anos mais tarde viveu seu primeiro grande desafio, a cobertura da Copa do Mundo, em território francês, no ano de 1998. Era seu primeiro evento de patamar internacional, contudo, com um diferencial: ele não foi convocado, visto que o jornal não cobria a Copa do Mundo, mas provocou sua própria escalação. “Eu sugeri para o diretor chefe de irmos para a Copa; os outros fotógrafos ficaram bravos pelo fato de eu estar lá há apenas dois anos e ir para o evento e eles não, mas o editor disse que ninguém nunca havia sugerido e por isso eu ia. Além de estar cobrindo os campeonatos que ninguém queria, como a terceira divisão do estadual”. Por ser muito esforçado, ao invés de se acomodar com a convocação, Joel percebeu que aquele era o momento de mostrar mais trabalho. “Deitava à uma da manhã e acordava às seis”. Além daquela primeira Copa de 1998, Joel também cobriu as de 2006, na Alemanha, 2010 na África do Sul e em 2014 no Brasil.

Em 2000, Joel decidiu explorar as coberturas em zonas de conflitos, área pela qual havia descoberto um interesse maior devido às coberturas diárias da violência na cidade de São Paulo. Aventurou-se, então, em seu primeiro conflito internacional na Colômbia, junto às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). “Na guerrilha colombiana tive meu primeiro contato com a guerra, mas não só na questão de armamentos, tiros etc, mas também de envolvimentos de histórias dentro da guerra”.

Aquela cobertura também marcou Joel pelo fato de não ter podido acompanhar o nascimento de seu primeiro filho. Joel não quis e nem pode deixar a oportunidade passar. “Foi nesse momento que experimentei, pela primeira vez, um dos grandes dilemas de quem decide embarcar nessa profissão. Submergir no porão desta sociedade nos cobra, também, decisões dolorosas”.

Por estar sempre muito interessado em qualquer fato e ter olhar atento para todas as situações, Eblak cita que o fotógrafo sempre foi diferente pela sua proatividade “Joel sempre se prontificou a ajudar o repórter por um motivo que nada tem a ver com bondade, solidariedade. Ele sempre se dispõe a ajudar o repórter porque sabe que o trabalho de ambos só vai ser melhor se ambos trabalharem em sintonia. Joel faz arte com suas fotos (tenho várias delas na memória) Em menos de cinco anos de profissão ele havia se tornado também um jornalista de marca maior e sem diploma de faculdade. Joel é um autodidata que se superou e segue se superando a cada dia.”

O conflito na Colômbia foi o primeiro de vários. Já esteve na Síria, na revolta da Primavera Árabe, na Líbia, também cobriu o massacre no Cairo que vitimou mais de 800 pessoas em um único dia. Além disso, atuou em conflitos no continente americano. Em 2009 cobriu o golpe militar em Honduras, em 2010, enfrentou a zona de guerra em território nacional, sendo escalado para cobertura da reintegração de posse no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. A cobertura desses eventos não é simples e exigem uma preparação pré e pós a missão. Os jornalistas recebem alguns treinamentos para ter um conhecimento prévio do que vão enfrentar. “Primeiro recebemos treinamentos teóricos e práticos, para, em um eventual ataque, se você estiver sozinho, colocar a mão na arma para se defender, e também para termos um conhecimento tático, para termos a tranquilidade de realizar o nosso trabalho”. Em uma de suas histórias, Joel relata que tirou fotos quando uma bomba caiu ao seu lado. Consegui tirar quatro fotos e depois fui retirado do local, mas isso devido ao treinamento”.

Momento exato de bombardeio na zona de combate em guerra na Síria (ARQUIVO PESSOAL)

“No conflito da Líbia, em Benghazi, eu fiquei 15 dias. Quando a situação apertou eu saí do país, fiquei três dias no Cairo e depois retornei. Ou seja, não existe uma regra específica, tudo depende de como ocorre”. Da mesma forma que existe um treinamento pré-guerra existe a preparação pós guerra. “Assim que eu cheguei passei por uma avaliação que a Folha exigia e fui liberado”. Entretanto, da mesma maneira que esse tipo de cobertura traz histórias e vivências únicas, elas também trazem malefícios “Eu não glamourizo guerra, ela vai te roubar coisas mentais, tempo com sua família. Você tem que ter muita coragem para por o pé em uma Guerra por que você tem que estar consciente da sua função ali”.

Soldados concentrados na faixa de Gaza em momento de tensão pré-combate. (ARQUIVO PESSOAL)

Eblak explica como é trabalhar com Joel: “Como editor, me dei conta do seguinte: o Joel era (e é, pois, continuo achando a mesma coisa) um dos melhores jornalistas que conheci. Joel é do tipo de fotógrafo que não faz apenas fotos, ele quer também participar da reportagem! Isto é um tremendo elogio, pois fotografia muitas vezes é sinônimo de arte e alguns dos profissionais deste campo importantíssimo do jornalismo acham que “não devem se meter com repórter”.

Após muitos anos em campos de guerras, Joel Silva decidiu parar com coberturas em combates para ficar com a família. “Decidi parar por forças externas, meus dois filhos tiveram problemas com depressão e também foi um momento em que rompi o contrato com a Folha e logo após começou a pandemia”. Atualmente, o fotojornalista tem apresentado um novo trabalho, o de fotos aéreas realizadas por meio de drones.”Estou olhando mais para a questão da mudança climática”.  O fotojornalista também ressalta que não pretende parar. Nunca vou parar com a fotojornalismo. A função do jornalista é descer no porão da sociedade e trazer à luz aquilo que ela não consegue enxergar”. E segue enviando pautas para os jornais e principalmente para a Folha.

(ARQUIVO PESSOAL) Imagem aérea do reservatório na cidade de Furnas-MG na qual mostra que o nível de água está abaixo do normal.

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