
A sala, que fica na Rua Álvares Cabral, próximo ao SEB COC, foi fundada em 1977, por Antônio Carlos Juliano, hoje é comandada por sua filha Sandra Regina e recebe visitantes com média entre 35 e 50 anos de idade.
Além de exibir filmes clássicos do movimento erótico moderno, como “Império dos sentidos” de Nagisa Oshima, por exemplo, que abriu portas para filmes atuais como “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, o local também é cenário de vários casos peculiares que lá ocorrem devido sua excentricidade, segundo Kleberson: “Alguns casos eram tão interessantes que beiravam o duvidoso”.
“Como o “Casal-Terça” por exemplo, que visita o cinema semanalmente todas as terças-feiras e o “Esquentador de Caldeira” que se propõe a colocar-se no colo dos demais visitantes absorvidos na sessão”, conta o jornalista.
“Além deles, há também o caso de um senhor que sempre visita o local sozinho e todos o estranham pelo fato de ficar o tempo todo extremamente imóvel e praticamente catatônico, assistindo a um filme pornô que além de ser mal roteirizado, ainda insiste em vender a ideia de um sexo completamente desnatural”, acrescenta.
Devido ao ambiente pitoresco e tentador, Rodrigues descreve o Cine Comodoro como “um local que está longe de ser um ambiente depravado e caracterizado como a “Sodoma e Gomorra ribeirão-preta”, mas sim como “um retiro para pessoas que de certa forma possuem dificuldades de se encontrar no que se entende como autossatisfação e prazeres carnais. E também é um lugar do qual é possível extrair muita coisa interessante.”
Abordando um tema considerado tabu na sociedade, Rodrigues diz que sempre acharam seu comportamento e pensamentos um pouco absurdos, tanto que com essa matéria não foi diferente, pois ao comentar com pessoas próximas sobre a pauta, ele ouviu muito que era algo de mau gosto e que deveria pensar em coisas mais produtivas. Mas esses comentários só serviram para incentivá-lo mais, pois, segundo ele, o curso de Jornalismo o ajudou muito a destilar melhor suas ideias.
A decisão de abordar esse assunto na matéria de 2018 veio da mistura entre o senso do absurdo e a sua curiosidade colossal, caracterizando o Cine Comodoro como “uma ruptura entre o corriqueiro ribeirão-pretano e o excêntrico que passa ali para ignorar as diversidades que podem ser encontradas na cidade.”
Porém, apesar disso, levar essa matéria adiante não foi fácil para o então estudante, pois o sentimento de dualidade proveniente da situação na qual tinha que dividir seu tempo entre a realização da matéria e o seu trabalho em período integral, era sufocante, considerando que adentrar-se no cinema para a realização da matéria foi uma tarefa difícil.
Pois, mesmo com o seu finado tio tendo trabalhado no Cine Comodoro, o estudante teve que ir diversas vezes ao cinema, tanto durante o dia quanto a noite, para tentar alguma aproximação, ele tentou conversar com diversas pessoas, mas dificilmente alguém quer falar publicamente que é um ávido frequentador de um cinema pornô.
Contudo, o jornalista cproduziu sua matéria aos finais de semana, pois era o período em que tinha mais tempo, e hoje declara: “Às vezes tenho a impressão que poderia ter feito algo melhor, todavia, dadas as circunstâncias acredito que tenha ficado um trabalho interessante dentro da proposta do veículo”.
O ex-aluno também propõe uma sugestão a todos que tenham curiosidade: “Se aproximem do cinema e se dêem ao luxo de experimentar o prazer do banco batido, cheiro peculiar de produto de limpeza e pessoas que só procuram uma distração.”