Você se lembra da última vez em que pisou na terra, andou descalço sobre um gramado? Segundo a Revista Mundial de Psiquiatria Biológica, o contato com a natureza está ligado a uma série de benefícios para a saúde global, como o fortalecimento da massa cinza no córtex pré-frontal. Esta região do cérebro está ligada à cognição, execução de tarefas e tomada de decisões.
Esse contato com a natureza recomendado por estudos internacionais pode ocorrer de várias formas: desde um passeio em um parque até à prática de jardinagem e horticultura. Tocar o solo, de acordo com um estudo finlandês produzido na Universidade de Helsinki, está relacionado a alcançar um sistema imunológico mais robusto. Muitas das bactérias presentes no solo são as mesmas encontradas na pele humana e na microbiota do intestino.
Mika Saarenpää, pesquisador e autor da tese de doutorado que resultou deste estudo na Finlândia, utilizou dois tipos de solos no experimento. De um lado, um solo rico em microrganismos, uma simulação da terra encontrada em uma floresta; de outro, um solo pobre em recursos. As pessoas que tiveram contato com maior quantidade de microrganismos obtiveram alterações notáveis no número de bactérias “boas” no sangue e na pele.
A Save Soil – parte do movimento Conscious Planet que busca conscientizar a população mundial sobre a degradação do solo – tem um relatório publicado que destaca como a terra rica em bactérias e micróbios pode auxiliar na saúde física e mental.Entre os alimentos consumidos, 95% são provenientes da terra. A pesquisa comprova ainda que a qualidade do solo está diretamente ligada à qualidade dos alimentos. Portanto, esses indicadores apontam para a necessidade de cuidar e preservar as características naturais do terreno no qual é feito o plantio
A maior diversidade de matéria orgânica e microrganismos se encontra presente em solos intocados. Um estudo realizado em uma tribo de indígenas yanomamis caçadores-coletores isolados na Amazônia venezuelana revelou que eles possuíam uma diversidade de bactérias da flora intestinal acima da média, pelo fato de se alimentarem com alimentos in natura, sem nenhum componente higienizador e antimicrobiano, além de não usarem calçados e assim estarem em contato prolongado com um solo virgem e rico em recursos.
Os benefícios do contato verde não param por aí. A revista The Health, em 2023, publicou que pessoas que trabalham com jardinagem e horticultura possuem a tendência a consumir mais frutas. As frutas podem ser uma fonte de fibras. Alimentos fibrosos possuem efeito positivo na saúde global, pois ajudam a reduzir a quantidade de açúcar absorvido, atuam no sistema imunológico e garantem a sensação de saciedade mais duradoura, auxiliando também na perda de peso.
Gosto por plantar verduras – Sebastiana Maria Madalossi Dias, dona de casa, conta que sempre gostou de hortas. Ela mora há três anos em uma chácara e gosta de plantar verduras. “A gente morou um tempo na cidade e lá eu plantava em vasos.” A dona de casa tem uma horta bem completa, com almeirão, rúcula, repolho, alface, couve-flor, mostarda, entre outras verduras e legumes.
“Tudo que a gente precisa tem nela. A horta serve para tudo”, fala Sebastiana com orgulho de sua plantação. Nada é perdido neste plantio. O que a própria família não consome ou é vendido ou é utilizado como alimento para os animais da propriedade D. Sebastiana destaca que é preciso cuidar diariamente da horta e, mesmo que seja trabalhoso, gosta da atividade. “Tem que aguar todos os dias, fazer os canteiros, tirar mato.” Ainda assim, são muitos os benefícios, entre os quais a horticultora destaca o acesso garantido a alimentos de qualidade e a ingestão diária frequente de verduras.
A jardinagem é outra atividade relacionada com a natureza e envolve o manuseio de terra e plantas. Sobre essa prática, a terapeuta ocupacional Danielle Barata Assad, afirma que lidar com jardins demanda executar movimentos diversos que exigem coordenação motora grossa e fina, além de equilíbrio e força para o plantio e manutenção dos canteiros. Inclusive para pessoas idosas, a terapeuta destaca que existem estudos apontando ganhos em atividades motoras, estimulação dos sentidos, melhora da autoestima e se praticada em grupo, a jardinagem promove maior performance na interação social.
Recomendação mundial – Passar o tempo em meio à natureza se tornou prescrição médica em países como a Escócia. Lá os médicos podem receitar desde caminhadas na praia até observação de pássaros para pacientes em tratamento de doenças crônicas ou psiquiátricas. D. Sebastiana, em Ribeirão Preto, a 8 mil km de distância, concorda e diz que a horta ajuda na saúde mental. “Quando você está trabalhando na horta, se esquece dos problemas.”
No Japão, há até mesmo uma prática chamada “banho de floresta” que visa proporcionar bem-estar e momentos de paz. Esse simples recurso pode evitar estresse crônico e seus sintomas mais agudos como insônia, depressão e ansiedade. O banho de floresta japonês orienta os praticantes a se atentar ao que está ao redor naquele momento, afastando-se do burburinho e das preocupações cotidianas.
A 18 mil km de distância, aqui em Ribeirão Preto, mesmo sem conhecer o assunto em sua profundidade científica, Pedro Felipe de Oliveira Freitas, 23 anos, aderiu à prática de fazer corridas e caminhadas em parques, junto à vegetação. O jovem fala que estar em meio ao verde traz mais tranquilidade, paz interior e a sensação de desacelerar. Ele frequenta os parques da cidade duas vezes por semana e passa em média 30 minutos no local.
Também em Ribeirão Preto, em 2016, a cidade recebeu um projeto no CAPS 3 (Centro de Apoio Psicossocial), localizado no Ipiranga. Lá eram oferecidas oficinas de geração de renda e terapêuticas, sendo que uma dessas oficinas era uma horta. Marcus Vinícius Santos, psicólogo da área técnica de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde, conta que se lembra de um paciente que sofria de depressão e dizia que trabalhar na horta era mais efetivo do que qualquer comprimido. O resultado foi tão efetivo que a horta foi descontinuada quando os pacientes responsáveis por cuidar da plantação receberam alta.
Saiba mais:
Hortas comunitárias produzem centenas de toneladas de alimentos por ano
A prefeitura de Osasco, em 2023, mantinha 16 hortas solidárias que faziam parte do Projeto Agricultura Urbana. Em uma ano foram produzidas mais de 132 toneladas de alface crespa, 127 de couve e 88 de rúcula. O projeto criou empregos para 60 famílias, em média. Além da produção de alimentos e da geração de renda, as hortas ocuparam espaços que eram degradados e necessitavam de manutenção.
Em São Paulo, a prefeitura possui o programa Sampa+Rural que busca desenvolver hortas em locais diversos espalhados pela cidade. Em uma dessas áreas de 2,1 mil metros quadrados, em apenas dois meses, mais de 120 culturas diferentes resultaram em uma tonelada de legumes e hortaliças orgânicas. Toda a produção é enviada para instituições assistenciais que cuidam de pessoas vulneráveis.
Outra iniciativa sediada na capital paulista, a ONG Cidades sem Fome mantém o projeto de transformar espaços inutilizados ou subutilizados em hortas. Em uma dessas hortas, nos melhores meses, de abril a dezembro, era possível colher de cinco a seis toneladas de vegetais por mês. Esses dados são de uma reportagem publicada em setembro de 2023 no portal norte-americano Mongabay News, focado em ciência ambiental, energia e design verde.
Além de São Paulo, no estado do Paraná, em 2022, a Copel – empresa de distribuição de energia – mantinha 11 hortas em funcionamento através do Programa Cultivar Energia, que somavam mais de 40 mil metros quadrados de área destinada à plantação. Segundo dados da empresa, à época, cada horta produziu 3 a 3,5 toneladas de alimentos orgânicos por mês e a iniciativa já contava com a contribuição de 377 horticultores.
Ainda na região sul do país, a cidade de São José (SC), o programa Horta Solidária Urbana, produziu, em 2022, mais de três mil toneladas de alimentos e envolveu, em média, 300 pessoas. A produção da horta é destinada a famílias que trabalham no cultivo e que trocam entre si os produtos colhidos.