Campos Elíseos busca preservar identidade com expansão de Ribeirão Preto

Superando os desafios contemporâneos, personagens do bairro lutam para manter vivo o sentimento de comunidade e restaurar tempos de glória

Nas grandes cidades é comum que casas, praças e calçadas tenham dado lugar a prédios e condomínios fechados. As cercas de madeira se transformaram em muros de concreto e o mercado imobiliário disputa espaços que são cada vez mais tecnológicos e completos.

A convivência fica restrita àquele pequeno grupo que reside em condomínios com piscinas, academias e quadras poliesportivas. Os grandes espaços em que interagiam famílias inteiras e suas diferentes gerações foram se tornando memórias de um tempo mais espontâneo e aberto.

No bairro Campos Elíseos, em Ribeirão Preto, a situação não é diferente e deixa um gosto amargo para aqueles que mal conseguem enxergar algum verde pela janela ou curtir um momento, rodeado de amigos e familiares.

Mas, ainda existem lugares que fazem parte da história e são um exemplo vivo de bons tempos de um passado não tão distante. Dois desses redutos são a antiga casa de comida árabe e suas esfihas que exalam cheiro ao longe; ou a mais conhecida sorveteria da cidade, cujo sorvete continua sendo considerado pelos seus admiradores como o melhor da cidade.

Avenida da Saudade, com seu comércio e intenso movimento, é uma das marcas do Campos Elíseos (Foto: Vinicius Damasceno)

O maior bairro de Ribeirão Preto tem sua origem em 1887, como um local destinado a imigrantes, em uma tentativa de afastá-los do centro da cidade. Com essa origem, o Campos Elíseos emerge como uma comunidade pulsante com marcos que foram destaque entre os ribeirão-pretanos.

Um deles, emblemático, foi a estação de trem que separava o então Barracão de Cima (Ipiranga) e o Barracão de Baixo (hoje, o Campos Elíseos).

Pela Estação Barracão passavam a exportação de café no auge do Eldorado que atraiu imigrantes europeus em busca de oportunidades, a chegada de artistas para apresentação de óperas no Teatro Carlos Gomes, os coronéis e suas famílias que iam e vinham de São Paulo.

Já no início do século XX,  aquela localidade atraiu indústrias e movimentou um forte comércio, tornando-se, ao lado da Vila Tibério, um dos  bairros operários da cidade. A indústria Matarazzo foi uma das referências do Campos Elíseos nas primeiras décadas do século. Outra referência, é o Cemitério da Saudade com suas esculturas feitas em mármore importado por artistas imigrantes italianos.

Com o tempo, o bairro perdeu aquele caráter operário e a concentração demográfica, mas as famílias que cresceram junto com os Campos Elíseos tornaram-se fortemente conectadas à comunidade, preferindo frequentar seus próprios estabelecimentos, quase como uma pequena cidade dentro de Ribeirão Preto. Esse forte senso de pertencimento sedimentou a conexão dos moradores com praças, igrejas, clubes e outros espaços coletivos do Campos Elíseos.

Hoje, os moradores mais jovens perderam essa conexão característica dos mais antigos. Três marcos do bairro  evidenciam tais transformações derivadas do tempo. O Ipanema, tradicional clube da cidade, é o que mais revela as mudanças no estilo de vida e hoje enfrenta problemas com o baixo número de sócios; a Igreja Santo Antônio de Pádua que, embora ainda tenha uma forte caráter social e ajude os moradores mais necessitados, tem visto reduzir o número de fiéis ao longo dos anos; e por fim, a capela Santo Antonino, Pão dos Pobres, na avenida da Saudade, encontra-se deteriorada, apesar da riqueza arquitetônica e de manter frequentadores fiéis nas missas de domingo.

 

Ipanema Clube

Na rua Antonio Diederichsen, próximo à avenida Costa e Silva, o  Ipanema Clube já foi referência para a população que vive no bairro e até mesmo fora dele. Fundado em 1965, o clube segue como um dos principais espaços do Campos Elíseos que carregam lembranças familiares.

Um lugar que promove cultura, lazer e esporte e que, na memória afetiva dos bailes tradicionais, carnavais e domingos à beira das piscinas, o clube encontrou sua resiliência.

Os bailes de carnaval e o Baile da Foca Azul marcaram época, ficando conhecidos por reunir multidões em festas memoráveis. Esses eventos chegaram a registrar mais de 15 mil participantes. Outros destaques foram os shows, com a presença de famosos como a dupla Tonico e Tinoco ou os cantores Sidney Magal e Nelson Gonçalves.

Tonico e Tinoco em um show no Ipanema Clube (Foto: Reprodução / Site oficial do Ipanema Clube)

Um dos responsáveis pela administração do Ipanema, o professor aposentado Jaime Rodrigues da Silva, atual diretor do clube, é sócio há 52 anos. Seu primeiro contato com aquela associação criada para o lazer e o esporte, aconteceu em 1974, por convite de um amigo da época. Jaime recorda: “Eu gostava muito de jogar futebol. Eu não era muito bom não, hoje então, já não consigo mais jogar. Mas, eu me divertia muito.”

Piscina Olímpica do Ipanema Clube é uma das raras existentes em Ribeirão Preto (Foto: Vinicius Damasceno)

O esporte representou um dos pontos altos do Ipanema. Com modalidades que ainda hoje variam entre bocha, futebol, judô, ginástica, vôlei, além do jiu-jitsu, implantado recentemente, a direção espera recuperar a vocação poliesportiva e atrair novos frequentadores. Atualmente, inclusive, existe o sonho de receber campeonatos da Copa Libertadores de Fut 7, marco esse que seria uma etapa muito promissora para o futuro do clube. “Queremos continuar trabalhando com esse público mais jovem”, afirma Silva.

Porém, a realidade revela-se difícil. Com áreas verdes, brinquedos e espaços fechados por falta de manutenção, o clube não tem os recursos necessários para investir. Nos seus anos de ouro, contava com mais de 3 mil sócios, número que atualmente não passa de mil. A  lista de funcionários foi reduzida de 64 para apenas oito.

Piscina de tobogãs era a mais procurada pelas crianças e adolescentes (Foto: Vinicius Damasceno)

Segundo o diretor,  o cenário é reflexo de um novo estilo de vida.  “Não nos adaptamos a um novo público, mas estamos tentando todos os dias mudar isso. Não queremos fechar as portas, mas tentar nos atualizar”, afirma. Para isso, ele garante que o Ipanema segue firme, em busca de inovação e investimento, terceirizando algumas áreas, o que tem ajudado na divulgação de eventos e agregado lazer e esporte para a comunidade.

A expectativa de Jaime Silva e dos associados que continuam frequentando e aproveitando o que é possível, não esmorece. Se o grupo conseguir mobilizar apenas uma parte dos quase 30 mil moradores do Campos Elíseos contabilizados no Censo do IBGE de 2022, o clube voltará aos seus dias de glória.

SERVIÇOS

Ipanema Clube
Rua Antônio Diederichsen, 255
(16) 3626-7000
Quarta a domingo: 8h30 às 18h

Tradição de Santo Antônio

A Basílica Santo Antônio de Pádua, com sua característica construção avermelhada em tijolo maciço (Foto: Vinicius Damasceno)

Ao fundo da praça Santo Antônio é impossível não ver, na rua Paraíba, a expressão máxima da religiosidade do bairro: A Basílica Menor Santo Antônio de Pádua. Fundada em 1947 por monges olivetanos, vindos diretamente da Itália, a igreja foi erguida para atender os imigrantes italianos de fortes raízes católicas que, na época, eram maioria no bairro.  Inspirada na Abadia de Monte Oliveto Maggiore tem um estilo clássico românico-lombardo semelhante à sua inspiradora.

Antes classificada como Matriz, em 2019 foi elevada à denominação de Basílica Menor pelo Papa Francisco. O novo título foi anunciado pelo arcebispo de Ribeirão Preto, Dom Moacyr Silva, que reconheceu a importância da  igreja para a história do bairro e de toda a cidade.

A religião, nos Campos Elíseos, foi e ainda é marcada pela Santo Antônio, conhecida em toda a cidade, sobretudo pela distribuição dos pães bentos no dia 13 de junho. A Igreja esteve sempre presente em momentos cruciais da vida dos devotos do bairro, entre eles, Olimpio Aparecido Vilela, que ali trabalha e onde passa boa parte de seu tempo. “A igreja representa muito o bairro Campos Elíseos, porque em Ribeirão Preto, há 50 anos, não existiam tantas igrejas quanto se tem hoje.”

Hoje, a Basílica tem missas comemorativas, quermesses e a tradicional benção dos pães de Santo Antônio e nessa data fica lotada de fiéis, Vilela ressalta que esse é o evento de maior importância para a comunidade. A bênção de pães é feita em várias missas ao longo de semanas, mas a principal é a do dia do santo padroeiro, quando também acontecem quermesse e procissão.

Nesse dia, a igreja recebe devotos do bairro, das imediações e de todas as partes da cidade.   “A quermesse é muito famosa e atrai muitas pessoas”, diz Vilela.

Ao longo do dia, começando muito cedo, são rezadas missas em que os devotos buscam pães benzidos que, levados para casa, são colocados em latas e potes de mantimentos como arroz ou farinha. Trata-se da tradição mais marcante da Paróquia, simbolizando a caridade do santo padroeiro conhecido e reverenciado pelos católicos como o santo dos pobres, o Santo Antonino Pão dos Pobres, além de ser considerado também o “santo casamenteiro”.

Santo Antônio também é padroeiro e cultuado como santo caridoso em outra igreja no Campos Elíseos. A pequena Santo Antonino Pão dos Pobres, fica na avenida Saudade, 222, na parte baixa da avenida, bem perto do centro.

Localizada entre as ruas Minas e Rio de Janeiro, essa paróquia, quase uma capela, teve sua construção iniciada em 1892 e foi entregue aos devotos em 1903, portanto há 123 anos. É considerada o templo mais antigo da Ribeirão Preto. Ali também é rezada missa no dia de Santo Antônio e são distribuídos pães bentos. A igrejinha, porém, precisa de reparos e manutenção pois está em estado de deterioração avançada.

Paróquia Basílica Santo Antônio de Pádua

R. Paraíba, 747
(16) 99753-3910
Dias e horários de missas:
De segunda a sexta – 7h e 19h30
Sábado – 7h e 19h
Domingo – 8h, 10h, 17h e 19h

Santo Antônio, Pão dos Pobres

Av. da Saudade, 222
(16) 3236-4410 / (16) 9.9217-6540 (Whatsapp)
Missas:
Aos domingos, às 9h
Nos dias 13 de junho, também às 9h.

 

Vozes da Nossa Gente

O projeto Vozes da Nossa Gente é um projeto multiplataforma acidade on Ribeirão em
parceria com o curso de Jornalismo da Unaerp.

Com foco no jornalismo hiperlocal e buscando uma maior conexão com a comunidade, o “Vozes da Nossa Gente” pretende inspirar com boas histórias, que serão contadas de maneira humanizada pelos moradores de oito bairros de Ribeirão Preto.

Esta produção é dos alunos do curso de Jornalismo da Unaerp Attiê Bittar, Leonardo Filipecki, Rafael Cunha Vinicius Damasceno, sob supervisão dos professores Gil Santiago, Guilherme Nali e Elivanete Zuppolini. Barbi. Uma iniciativa do acidadeon em parceria com os alunos da 3a etapa de Jornalismo da
Unaerp.

Gostou? Compartilhe com os amigos