Herdeiros Empresariais

Sucessores do negócio da família, empresários relatam as dificuldades de assumir a empresa e as estratégias para superar os desafios
por Fábio Palaveri
Pai e filho, os Alexandres compartilham a paixão pelo empreendedorismo

Preparar a geração seguinte para assumir o comando de uma empresa familiar se apresenta como a chave que garante não apenas a solidificação como também a evolução dentro do mercado. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as empresas familiares representam cerca de 90% dos empreendimentos no Brasil. Entretanto, nem todos os herdeiros são preparados da melhor maneira para assumir determinadas responsabilidades, podendo causar prejuízos ou levar a empresa à falência. Assumir a administração de uma empresa não pode ser considerado uma tarefa fácil. Entre os desafios estão a responsabilidade de carregar um sobrenome, a grande cobrança através da comparação do desempenho entre as gerações anteriores e o pouco conhecimento na área. Esses fatores contribuem para dificultar o início da carreira dos herdeiros empresariais.

Herdeiro, Alexandre Ramos da Silva Filho, conhecido como Mahal, diz que o pouco conhecimento dificultou os primeiros passos como empresário. “Não ter experiência na área dá medo. Afinal, eu não podia cometer os mesmos erros e muito menos perder tudo aquilo que meu pai construiu em mais de dez anos”, afirma o atual diretor da AR Empreendimentos Comunicação e Eventos. Além das dificuldades, nem todos os empresários escolheram assumir os negócios dos seus pais. São muitos os fatores que levam os filhos a herdarem empresas. A busca por alguém próximo e de confiança, o orgulho de ver o empreendimento crescer mesmo estando distante e a convivência dos filhos desde pequenos dentro da área de trabalho dos pais são fatores que fazem a diferença para a decisão de passar a empresa aos sucessores.

Hoje, fora da direção da AR Empreendimentos, o pai Alexandre Ramos da Silva ainda atua na presidência do grupo, mas tomou a decisão de se afastar da empresa. “Eu estou tirando o pé do acelerador aos poucos. A informática manda no mundo, a forma como trabalhar está mais rápida. A minha geração, nesse aspecto, é muito devagar”. O empresário acredita que tomou a decisão certa e espera ver a empresa que criou há 17 anos, prosperar.

“Hoje, os jovens já nascem comunicadores, com seis anos possuem celulares. Eu precisava ter alguém de confiança que fizesse com que minha empresa se encaixasse nessas mudanças, e até agora o Mahal tem mostrado muito bem isso.”

Mesmo fora da direção, os antecessores quase sempre auxiliam as próximas gerações em relação à condução dos negócios. Dicas valiosas fazem com que os novos empresários não percam tempo cometendo alguns erros semelhantes aos dos seus pais, podendo desta forma otimizar o desempenho do empreendimento. Em 2004, o açougueiro Geraldo José Lovato assumiu a empresa de seu pai, e conta que a tradição sempre esteve presente no negócio da família. “O meu pai sempre dizia que preservar o cliente é primordial. Você precisa ter o cliente na mão e até mesmo buscá-lo na própria casa.” O Açougue Lovato foi criado em 1963 e desde então a família se uniu para transformar o estabelecimento na melhor opção em carnes para a cidade. “Atingir o sucesso é algo difícil, mas o mais difícil é manter o sucesso. Para isso acontecer, todos os empresários não podem ficar parados, senão a concorrência joga você para trás”, conclui o herdeiro do açougue, conhecido como Gera.

Vantagens e desvantagens
O fato de uma empresa ser familiar não se apresenta como fator decisivo para que esta tenha sucesso ou não. Assim como todos os negócios, esse tipo de empreendimento também possui aspectos bons e ruins. Diferenciar um membro da família de um funcionário pode ser considerado a maior dificuldade entre os empresários dessa área. “O tratamento é diferente. Ás vezes, tenho que chamar atenção e o fato daquela pessoa ser da minha família dificulta. Eu não posso fazer da mesma forma que faria com um funcionário, afinal, provavelmente eu  encontrarei aquela pessoa fora do horário comercial e isso fica chato”, comenta Geraldo, do Açougue Lovato.

O compromisso dos familiares com relação à empresa também pode ser abaixo do esperado. “Trabalhar em família pode ser algo desgastante e infelizmente alguns se acomodam nesse processo. Alguns parentes tem a ideia errada de que a cobrança dono em relação a um filho ou um primo será menor”, afirma o herdeiro Alex Mahal, da AR Empreendimentos. Porém nem tudo são espinhos. Entre os pontos positivos mais citados aparecem a confiança entre os funcionários, a liberdade e a autonomia das tarefas dentro da empresa. Uma vez que todos estão no mesmo barco, todos remam na mesma direção e ninguém deseja o fracasso do outro. Situação que acontece com outros tipos de serviços. Alex Ramos afirma que o equilíbrio dos fatores tornam as empresas familiares mais sólidas, e que aproveitar as conquistas das gerações passadas e alcançar novas metas com a gestão atual garantem o bom desempenho de todos. “Aqui eu não sou pai de ninguém, assim como eles não são meus filhos. Quando esse tipo de empresa consegue acertar nesse ponto, o sucesso é garantido”, conclui.

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